(Prof. Dirlei A Bonfim).*
A meritocracia, no contexto do neoliberalismo, é amplamente discutida não como uma virtude, mas como uma farsa ou um mito ideológico que legitima e perpetua a desigualdade social. Sob a lógica do “novo capitalismo selvagem”, a meritocracia funciona como um mecanismo que ignora as disparidades estruturais (de classe, raça e origem), assumindo que todos partem do mesmo ponto. Dentro da lógica do neoliberalismo e do capitalismo selvagem, a meritocracia é amplamente considerada por sociólogos e economistas críticos como uma farsa ideológica ou um mito, enquanto a equidade é quase inexistente na prática. Embora apresentada como uma “virtude” que recompensa esforço e talento, ela funciona frequentemente para legitimar privilégios herdados e naturalizar desigualdades profundas. A Farsa da Meritocracia no Neoliberalismo. Segundo Souza (2017), “A “Culpa” da Vítima: “Essa ideologia transforma o abandono social em “escolha individual”, culpando o pobre por sua própria condição e escondendo a exploração exercida pelas classes dominantes”. Mito das Oportunidades Iguais: Acredita-se que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual (“quem quer, consegue”). No entanto, na prática, ela mascara vantagens injustas e privilégios estruturais, transformando desigualdade em “falta de mérito”. Responsabilização Individual: O sistema neoliberal tende a transferir a culpa pelo fracasso para o indivíduo, escondendo as falhas estruturais que impedem a ascensão social de grande parte da população. Ainda para Souza (2023), “A meritocracia funciona como um “mito” que serve para justificar a reprodução eterna das desigualdades sociais e raciais, escondendo a injustiça de modo eficiente”. Reprodução de Desigualdades: A meritocracia funciona frequentemente como uma ferramenta de justificação da concentração de riqueza e poder no topo, desconsiderando que o mérito só se realiza quando há equidade no ponto de partida. Equidade vs. Igualdade na Meritocracia: Equidade busca dar oportunidades diferentes para pessoas com necessidades diferentes, visando um resultado justo. A meritocracia neoliberal propaga uma “igualdade formal” (tratar todos igual) sem garantir uma igualdade material (condições iguais), o que, em sociedades desiguais, gera injustiça, não mérito. Capitalismo Selvagem e o Discurso do Mérito: Este modelo, caracterizado pela desregulamentação e maximização do lucro, utiliza o “empreendedorismo individual” para convencer o trabalhador de que ele é dono do seu destino, muitas vezes precarizando direitos sociais. A meritocracia, portanto, atua como uma ideologia que tenta legitimar a competitividade extrema do capitalismo contemporâneo. A Meritocracia como Farsa (Mito) Desigualdade no Ponto de Partida: A meritocracia ignora que indivíduos começam a vida em condições drasticamente diferentes (herança, educação de qualidade, rede de contatos), tornando a competição injusta. Reprodução de Privilégios: Em vez de promover mobilidade social, o sistema muitas vezes garante que os filhos das elites mantenham suas posições, disfarçando o privilégio como “mérito”. A “Tirania do Mérito”: Como aponta Michael Sandel, a meritocracia gera ressentimento nos perdedores e arrogância nos vencedores, que acreditam que seu sucesso é fruto exclusivo de seu esforço, esquecendo a sorte e a estrutura social. Instrumento de Conformismo: A narrativa meritocrática convence os menos favorecidos de que sua posição inferior é culpa própria, diminuindo a pressão por mudanças estruturais. A Lógica Neoliberal/Capitalismo Selvagem.Do ponto de vista neoliberal, o conceito de “equidade” é frequentemente subvertido ou ressignificado para servir à lógica do mercado e à perpetuação de um capitalismo de alta intensidade (selvagem), diferenciando-se radicalmente da igualdade de direitos ou justiça social.Na essência, a equidade no neoliberalismo é entendida como igualdade de oportunidades na competição (meritocracia) e não como igualdade de resultados, servindo como ferramenta para legitimar disparidades sociais e impor flexibilidade aos trabalhadores. A Equidade como Meritocracia e Competição: Dar a cada um o que merece” (não o que precisa): A equidade neoliberal defende que o justo é que os indivíduos recebam recursos baseados em seu mérito e produtividade, e não em suas necessidades básicas. Justificativa da Desigualdade: Se todos têm a “mesma” oportunidade de competir (supostamente), o resultado final (desigualdade de renda) é visto como equitativo, pois reflete o esforço individual. A desigualdade, portanto, passa a ser vista como natural e até desejável para estimular a produtividade. Imposições aos Trabalhadores: Individualização da Responsabilidade.
O trabalhador é responsável pelo seu sucesso ou fracasso (a ideia do “empreendedor de si mesmo”). Problemas estruturais (desemprego, baixos salários) são tratados como falhas individuais de capacitação. Flexibilização e Precarização: A equidade é usada para justificar contratos intermitentes, terceirização e uberização. Segundo o Professor Souza (2020), A “Equidade” como Máscara: A narrativa de flexibilização (contratos intermitentes, uberização) usa conceitos de “liberdade” e “equidade” para esconder a desproteção social e a exploração de classe”. Uberização como Nova Escravidão: Ele entende que a uberização e a terceirização são formas modernas de trabalho que perpetuam a lógica da escravidão — a exploração intensa do trabalhador sem nenhum direito ou garantia”. O papel da Elite: Essas mudanças são promovidas pela “elite do atraso” e pela classe média branca, que, na visão do autor, manipulam o Estado e as leis para retirar direitos trabalhistas, tratando o trabalhador como um objeto de extração de valor, sem fornecer proteção social.”. A “flexibilidade” é apresentada como equidade para o trabalhador, permitindo que ele gerencie seu tempo, mas na prática transfere os riscos do negócio (ônus da recessão) para o indivíduo. Subjetividade Tolerante ao Sofrimento: A lógica neoliberal engaja os trabalhadores em condições insalubres e jornadas exaustivas, cultivando a ideia de que o sofrimento e a alta competitividade são necessários para a sobrevivência e o “sucesso”. A Equidade contra a Igualdade (O “Capitalismo Selvagem”) Privatização da Proteção Social: Diferente da igualdade (direitos universais), a equidade neoliberal foca em “meios de teste” (means-testing) — direcionar o mínimo de assistência apenas aos mais vulneráveis, desmantelando o estado de Bem-Estar Social (Welfare State). Segundo Casara (2021), “A noção de equidade no capitalismo neoliberal é vista como uma estratégia para reduzir custos, focalizando o atendimento apenas nos “mais pobres”, em detrimento da universalidade dos direitos sociais”. Ou ainda vai dizer o Professor Bauman (2015), sobre a Individualização do fracasso, “A responsabilidade pelo aprimoramento profissional recai cada vez mais sobre o trabalhador”. Se ele falha, a culpa é atribuída apenas ao seu esforço, ocultando as desigualdades estruturais”. Responsabilidade individual: Na modernidade líquida, os trabalhadores são incentivados a se verem como “microempresas”, responsáveis por seu próprio sucesso ou insucesso econômico”. A “farsa” do mérito: A meritocracia funciona como um mito que legitima desigualdades profundas, onde a competição substitui a solidariedade”. Estado Pro-Mercado: O Estado não atua para reduzir a desigualdade, mas para criar e manter mercados competitivos, muitas vezes socorrendo corporações (“too big to fail”) enquanto impõe austeridade fiscal aos trabalhadores. Conflito de Interesses: A equidade neoliberal ignora a exploração estrutural. Ela busca apenas garantir que a competição pareça “limpa”, sem questionar o fato de que a riqueza gerada pelos trabalhadores não é socializada, mas apropriada privadamente. Em essência, a “equidade” no capitalismo selvagem neoliberal funciona como uma norma ideológica que ajusta os indivíduos às necessidades do capital, aceitando o aumento da pobreza e a precarização do trabalho como um resultado “justo” de um mercado livre. Foco no Mercado: O neoliberalismo prega a redução da intervenção estatal e a desregulamentação, confiando ao mercado a distribuição de recompensas, o que tende a concentrar riqueza. Autorresponsabilidade: A ideia de que o indivíduo é o único responsável pelo seu sucesso ou fracasso (a autorresponsabilidade) desobrigou o Estado de fornecer serviços públicos equitativos. A “Economia do Medo”: A farsa neoliberal, como chama Eduardo Moreira, utiliza a precarização do trabalho (capitalismo selvagem) para forçar as pessoas a aceitarem condições exploratórias sob a promessa de um mérito futuro que raramente chega para a maioria. A Equidade em Questão: Equidade vs. Igualdade: O sistema atual confunde “igualdade de oportunidades” (fictícia) com “equidade” (dar recursos diferentes para pessoas em situações diferentes). Segundo Sandel (2020), A “Ameaça à Solidariedade: A ideia de que “cada um ganha o que merece” elimina a noção de que somos sortudos por ter certos talentos e de que devemos gratidão à sociedade”. O “papel da Sorte: Sandel enfatiza que o talento e o esforço são, em parte, fruto da sorte (criação, ambiente, talentos naturais), portanto, o sucesso não deve gerar soberba”. “Dignidade do Trabalho: A meritocracia desvaloriza o trabalho manual e prático, focando apenas no mérito acadêmico/cognitivo”. A falta de equidade real impede que o mérito seja, de fato, o único critério. Ações Afirmativas: O combate à farsa meritocrática muitas vezes envolve ações afirmativas (como cotas), que são vistas como necessárias para corrigir desigualdades históricas e estruturais. No contexto do capitalismo selvagem, a meritocracia funciona como uma virtude ética no plano individual, mas como uma farsa estrutural no plano social. Farsa/Ideologia: Autores críticos argumentam que a meritocracia serve para justificar a desigualdade no capitalismo selvagem.
A partir de Young (1958), O termo “meritocracia” “foi cunhado pelo sociólogo britânico em seu livro satírico “A Ascensão da Meritocracia” (The Rise of the Meritocracy, (1958). Young previu que uma sociedade governada pelo QI + Esforço criaria uma elite arrogante e uma subclasse humilhada, acreditando que sua pobreza é justa”. Ela finge que todos competem em igualdade, ignorando desvantagens estruturais (raça, classe, educação). Capitalismo Selvagem: O termo descreve um mercado sem regras éticas, onde a busca pelo lucro ignora a proteção social. A “farsa da meritocracia” funciona como uma ferramenta ideológica para fazer com que os perdedores acreditem que são culpados pelo seu próprio fracasso, evitando revoltas contra o sistema. Equidade vs. Igualdade Meritocrática: Enquanto a meritocracia prega “tratar todos da mesma forma” (igualdade formal), a crítica aponta a necessidade de equidade (dar condições desiguais a quem é desigual) para garantir justiça real. Algumas considerações finais, longe da conclusão: A crítica ao neoliberalismo e ao novo capitalismo selvagem, para além da farsa ou tragédia da equidade e da meritocracia, frequentemente associada à desconstrução da meritocracia, ou de seus impostos comportamentos, como uma “farsa ou tragédia”, (falsa promessa de igualdade de oportunidades) em contraste com a equidade, é abordada por diversos autores contemporâneos e clássicos. Eles argumentam que a meritocracia, num sistema desigual, legitima privilégios e culpabiliza os desfavorecidos pelo próprio fracasso. Ela serve como um mecanismo ideológico que justifica a desigualdade, permitindo que a acumulação de capital seja vista como justa e merecida, mesmo quando baseada em oportunidades desiguais. Em suma, as pesquisas apontam que, sem equidade real e políticas sociais ativas para corrigir injustiças históricas, a meritocracia transforma-se em um discurso de manutenção de privilégios, justificando a desigualdade em um sistema neoliberal de alta competição. A meritocracia é um mito que alimenta o processo profundo das desigualdades, econômicas e sociais.
Algumas referências :
Bauman, Zimunt. A riqueza de poucos beneficia a todos nós (2015).
Bourdieu, Pierre. Contrafogos: Táticas para Enfrentar a Invasão Neoliberal (1998). Brown, Wendy. Nas Ruínas do Neoliberalismo (2019).
Casara, Rubens. Contra a Miséria Neoliberal (2021).
Christian Dardot e Christian Laval. A Nova Razão do Mundo: Ensaio sobre a Sociedade Neoliberal (2016 – tradução brasileira).
Fraser, Nancy. Capitalismo, Neoliberalismo Progressista e Lutas.(Reflexões contemporâneas – 2021).
Harvey, David. O Neoliberalismo: História e Implicações (2005).
Kevin Bales, Kevin. Autor de “Disposable People: New Slavery in the Global Economy” (Pessoas Descartáveis: A Nova Escravidão na Economia Global).2020. Littler, Jo. Against Meritocracy: Culture, Power and Myths of Mobility (2017). Moreira, Eduardo : Economia do Desejo: A farsa da tese neoliberal (2020). Peketty, Thomas. O Capital no Século XXI,(2013). Sandel, Michael J. A Tirania do Mérito: O que aconteceu com o bem comum? (2020). Souza, Jessé. A Elite do Atraso. (2017).
________A Ralé Brasileira: Quem é e Como Vive (2009/2017/2023): Obra clássica que utiliza dados e depoimentos para mapear a “subcidadania”, um grupo de 70 milhões de brasileiros vivendo em condições de desvantagem acumulada. ________ Brasil dos Humilhados: Uma denúncia da ideologia elitista (2022): Demonstra como a elite intelectual constrói uma imagem depreciativa do povo para justificar seu abandono.
Young, Michael. A Ascensão da Meritocracia (1958). Williams, Eric. Em “Capitalism and Slavery” (reeditado em 2022).
**contribuição do Professor DsC Dirlei A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Ambiental, Professor da Rede Estadual da Bahia, Professor Formador IAT/SEC/BA.*03/2026.1.**