O atual governo municipal de Vitória da Conquista, Bahia, vem promovendo um profundo desmonte das políticas públicas de cultura, apagando conquistas históricas da sociedade conquistense e reduzindo a Secretaria Municipal de Cultura a um comitê de gerenciamento dos interesses da burguesia local — classe que detém os meios de produção, o controle da riqueza e do capital, e, portanto, aparelha o Estado e o mercado capitalista em benefício próprio.
Esse movimento não é isolado: ele se inscreve num processo nacional de destruição simbólica e material das políticas públicas iniciado com o avanço da onda neoliberal e ultraconservadora no país, intensificada a partir do golpe parlamentar de 2016 e consolidada durante o governo de Jair Bolsonaro, cuja herança ideológica e administrativa reverbera fortemente na atual gestão municipal.
A história recente do Brasil demonstra que a cultura, quando não se submete à lógica do capital, é tratada como inimiga. Isso porque a arte, em sua essência libertária, questiona as estruturas de poder e revela as contradições sociais do capitalismo dependente e periférico em que vivemos. Por isso, os governos autoritários e ultraliberais temem a cultura — pois sabem que onde a arte floresce, o povo pensa, critica e resiste.
Em Vitória da Conquista, o reflexo dessa política é o sucateamento dos principais equipamentos culturais da cidade — o Teatro Carlos Jehovah, o Cine Madrigal, a Casa Glauber Rocha e a área destinada ao monumento Glauber Rocha. O governo justifica o abandono desses espaços com argumentos frágeis e economicistas: diz que o processo de tombamento da Casa Glauber Rocha está parado por exigência dos herdeiros e que os custos de revitalização seriam altos demais.
Ora, não há custo quando se investe na formação humana e na identidade cultural de um povo. Há investimento social, civilizatório e econômico. O equívoco conceitual e ideológico está em chamar de “gasto” aquilo que constitui a base simbólica da própria cidade, reconhecida nacionalmente como um dos polos culturais mais expressivos do interior da Bahia.
A escolha das palavras não é inocente. O termo “gasto”, utilizado pela ciência econômica liberal clássica, traduz uma visão de mundo que reduz a cultura à mercadoria e o ser humano a consumidor. Em governos de direita e extrema-direita, a cultura é sempre o primeiro alvo, porque ela produz consciência, questionamento e memória — tudo aquilo que o autoritarismo tenta apagar.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, ídolo e referência da atual administração municipal, inaugurou o período mais sombrio da história recente da cultura brasileira, extinguindo o Ministério da Cultura e as estruturas públicas que democratizavam o acesso aos recursos, projetos e programas culturais. A estratégia foi clara: asfixiar a cultura crítica e popular e concentrar recursos nas mãos de artistas e produtores alinhados ideologicamente à extrema direita, notadamente os chamados “agroboys”, representantes simbólicos do agronegócio e de sua estética patriarcal, racista e elitista.
A cultura, então, foi reduzida a show business — espetáculo mercantilizado que serve ao marketing político e à circulação de grandes capitais. Megaeventos, com custos milionários, transformaram-se em instrumentos de propaganda ideológica e privatização do espaço público, beneficiando empresas que exploram a cadeia de som, palco, luz, telões e estruturas, todas amplamente financiadas por contratos públicos. Essas mesmas empresas “retribuem” o favorecimento financiando campanhas eleitorais, motociatas, acampamentos golpistas e o ataque à democracia, culminando no vergonhoso 8 de janeiro de 2023.
Enquanto isso, os artistas locais e regionais — que sustentam historicamente a vida cultural da cidade — são marginalizados e humilhados. O último São João de Vitória da Conquista é exemplo gritante: custou mais de 4 milhões de reais, mas destinou menos de 20% desse valor para contratar mais de 60% das atrações, todas locais. É a lógica da concentração e da desigualdade aplicada à cultura: aos artistas da terra, as migalhas; ao estrelato nacional, os banquetes.
Essa política de exclusão retira recursos da cidade, pois o dinheiro pago aos grandes artistas migra para as capitais do Sudeste, enfraquecendo o fluxo de renda local e reduzindo o potencial de geração de emprego e renda no próprio município. O que poderia ser um ciclo virtuoso de economia criativa e solidária, transforma-se num sistema de drenagem econômica, típico do modelo neoliberal periférico que exporta riqueza e importa dependência.
Mais grave ainda é o patrulhamento ideológico a que estão submetidos artistas e produtores culturais. O governo municipal vasculha redes sociais — WhatsApp, Instagram, Facebook, X (Twitter) e TikTok — para identificar posições políticas, ideológicas e partidárias, utilizando essas informações como critério de exclusão e perseguição. Casos como o do artista Walter Lajes evidenciam a tentativa de silenciamento e censura, práticas incompatíveis com a Constituição Federal e com o Estado Democrático de Direito.
Esse controle ideológico é expressão de um novo tipo de censura moral, econômica e institucional, que não precisa de decreto: basta negar edital, contrato ou espaço público. O resultado é a imposição do medo, a autocensura e o empobrecimento simbólico da cidade. Vitória da Conquista, que sempre foi vanguarda cultural do interior baiano, corre o risco de retroceder décadas, tornando-se uma vitrine oca de eventos comerciais e uma periferia cultural submissa aos ditames do capital.
Por tudo isso, nós, músicos, cantores, compositores, arranjadores e instrumentistas, expressamos nosso veemente repúdio:
- À lógica ultraliberal e de caráter fascista que defende um Estado mínimo para o social e um Estado máximo para os interesses privatistas;
- Ao desmonte das políticas públicas de cultura, que desmonta também o tecido simbólico e afetivo da cidade;
- Ao sucateamento e abandono dos equipamentos públicos culturais (Teatro Carlos Jehovah, Casa Glauber Rocha, Cine Madrigal e área do monumento a Glauber Rocha);
- À criminalização e perseguição dos artistas locais e regionais, que expressam a voz do povo;
- À imposição de cachês imorais e desrespeitosos, que desvalorizam o trabalho artístico e destroem a dignidade profissional;
- Ao patrulhamento ideológico, instrumento de coerção e censura velada;
- E à utilização indevida dos recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), que devem ser destinados de forma democrática, participativa e popular.
A cultura é o espelho da sociedade e a expressão mais elevada da liberdade.
Quando um governo destrói a cultura, ele destrói o pensamento, a imaginação e a esperança de um povo.
Por isso, afirmamos com toda a força: a arte é resistência, a cultura é soberania e o silêncio jamais será cúmplice.
Vitória da Conquista não se calará diante do autoritarismo, da censura e da barbárie neoliberal travestida de gestão pública.